por Otto Cerqueira



Meg não era dessas garotas como se vê hoje em dia. Não gostava de coisas fofas e certinhas, meiguices e obediências. Mas ao contrário do que se possa parecer, ela era solitária. Ficava em seu quarto sombrio horas a frio desenhando num papel colorido. Imaginava-se com uma companheira que a seguisse em suas traquinagens. Pegavam todos os lápis de cores das colegas de escola e jogavam na descarga, colocavam chicletes em seus cabelos, ou retiravam todos os fios de cabelos de suas bonecas só para demonstrar como as bonecas de Meg eram muito melhores.

De fato, as bonecas eram as melhores amigas de Meg. Ela os amava mais do que ninguém. Gostava de acariciar seus rostos, ajeitar seus cabelos e as colocar para dormir. Era o carinho e as irmãs que sua mãe nunca havia lhe dado.

Suas bonecas eram especiais. Sempre que ganhava ou pegava uma de alguém, gostava de tornar cada uma única. Maquiava seus rostos com faces brancas e maquiagens pesadas de tons escuros ou vermelhos. Picotava um pouco das saias e penteava seus cabelos com força o suficiente para deixa-las tão lisos quanto pudessem ficar. Sua família estava completa.

Ao contrário de suas bonecas, Meg vestia-se com muita delicadeza. Tinha porte altivo de madame em sua saia cor-de-rosa e bochechas rosadas. Tudo para manter a aparência de menina-moça e evitar a responsabilidade das coisas que fazia. Seus pais nunca estavam em casa, por isso ela tinha bastante liberdade. Mesmo as ligações da diretoria chegavam a demorar dias para serem respondidas.
Num dia como qualquer outro, acordou e subiu no banquinho para escovar os dentes. Vestiu-se sozinha. Colocou os laços nos cabelos loiros e estava pronta. Entrou no carro e foi levada por sua babá até a escolinha para a parte mais entediante do dia.

Lá chegando, percebe um montinho de garotas a cochichar. Há uma novata na turma e ela parece ter se enturmado em pouquíssimo tempo. Estão todas felizes falando de coisas bobas e divertidas. Meg desce rapidamente do carro e segue direto para o círculo de meninas, entrando bruscamente no meio para ver a recém-chegada. Ela era linda. Cabelos cor-de-mel, olhos castanhos e boquinha no formato de um coração. Meg a detestou instantaneamente. Fez aquele olhar de advertência para deixar bem claro que não havia espaço para uma nova estrela e foi embora.

Durante a aula, todas as atenções, inclusive a dos professores, continuavam voltadas para a inteligente nova aluna que parecia entender de tudo em todas as coisas. Era como uma declaração de guerra direta para a Meg. Era necessário tomar providências.

Decide fazer exatamente o que suas irmãs de pano faziam em seus desenhos, como se estivesse em sua companhia. Como sempre ficava só nos rápidos intervalos entre aulas, daria tempo para completar seus intentos.

No primeiro, pegou lápis coloridos da nova garota de sua mesa e os jogou na privada. Esperou ansiosamente pela sua chegada. Quando a garota retorna, fica triste pelo sumiço de suas coisas. Então as outras garotas se compadecem e compartilham, passando a colorir juntas, e deixando Meg ainda mais irritada.

Frustrada, Meg espera pelo segundo intervalo para revistar rapidamente a bolsa da garota. Fica surpresa ao encontrar uma boneca. Era perfeito. Pega a tesoura e corta um pouco de seus cabelos e coloca chiclete neles. Volta rapidamente para seu lugar, ajeita a saia e senta-se com sua carinha de anjo.

As garotas voltam animadas e falando alto, mas se calam ao verem a estranha boneca em cima da mesa da nova amiga. A recém-chegada calmamente anda até sua mesa e pega sua boneca. Acaricia seu rosto e olha para seus cabelos destruídos. Suas pupilas se enchem de água. Ela soluça e aperta os olhos para evitar chorar. Suas companheiras dão passos apressados em sua direção para acalmá-la. Elas se abraçam. Por um momento, Meg podia jurar que a garota a olhara com profundo ódio. Mas um monte de cabecinhas a cobriram, e passado alguns instantes elas ficaram ainda mais felizes brincando todas juntas enquanto faziam lição.

Hora do recreio. Frustrada por suas falhas, Meg anda apressada e em passos curtos até o campinho de areia. Ela não gostava de ir lá porque ficava toda suja depois, mas hoje tinha sido um dia terrível e ela precisava de um espaço para ficar só.

Enquanto isso, a garota de cabelos cor-de-mel se despede de suas amigas, dizendo a elas que as seguirá em breve. Agora estava sozinha na sala. Verifica pela janela e encontra Meg escondida no campinho de areia, olhando em direção ao nada, e, se sentindo segura, abre sua mochila. Retira uma série de desenhos horríveis e nefastos, dentre os quais, todas as coisas que ela passou hoje. Estava óbvio a culpada das coisas que viera sofrendo neste primeiro dia. Pois tudo que ela faz é pegar a sua boneca e a esconder lá no fundo da mochila. 

E vai embora.

Terminado as aulas vai cada uma para suas casas.

Meg fica chateada o resto do dia, pensando em seu azar. Se ao menos as coisas pudessem ser diferentes... E ela tivesse sua mãe sempre com ela... E irmãs para brincar. Por que tudo tinha que ser tão difícil?

Chegando a noite, ela arruma suas coisas para o dia seguinte. É quando nota a boneca daquela garota dentro da sua mochila. Que estranho... Mas, como o que é achado não é roubado, ela coloca a nova companheira junto com as suas bonecas de cabelos lisos. E vai dormir.

Durante a noite ela se remexe na cama. Não consegue dormir direito.

Imagina todas as suas bonecas a observando com seus olhos de botão rindo de forma sinistra. Elas a seguram pelos braços e a amarram na cadeira. Pegam um pente e escovam seu cabelo com força suficiente para fazer sua cabeça doer. Ela queria massagear os cabelos, mas as amarras a impediam. Quando olha para as bonecas novamente, estão todas mascando chiclete. Cada uma cospe uma goma diferente e coloca em seus lindos cabelos. Não era suficiente, decidiram que um corte cairia bem e picotam seu cabelo assimetricamente.

Horrorizada, começa a se mexer na cadeira. Tudo que conseguiu foi cair de costas, mas foi suficiente para libertar suas mãos. No entanto, não fora rápida o suficiente e as bonecas surgem novamente, com um monte de lápis de cor úmidos para rabiscá-la. Ela protege o rosto com as mãos e fecha os olhos com intensa força.
É quando ela acorda.

Ela respira profundamente, o coração ainda se acalmando. Os olhos arregalados e a pele pálida. Foi o pior pesadelo que tivera na vida. Ela olha ao redor tentando se habituar, e é quando nota que nenhuma de suas bonecas estava em seus lugares.

Meg sente seu cobertor sendo puxada e o pavor toma conta de seu rosto. O cobertor se torna cada mais pesado então ela o segura com força para perto de si, tentando cobrir-se. Estava congelada de medo. Então uma mãozinha de pano aparece na ponta de sua cama. E mais outra. E mais outra. Logo todo um clube de bonecas góticas sobe na sua cama. Elas se viram e agacham para ajudar outra boneca subir.

A boneca de plástico tinha cabelos picotados e cheios de chiclete. Segurava uma tesoura numa mão e uma agulha noutra, prontas para costura. Logo atrás, suas amigas a auxiliam segurando linhas e botões.
Meg ficou olhando, assombrada, enquanto aquelas pequenas criaturas iam a sua direção, totalmente indiferentes a qualquer outra coisa. E sabia, como ninguém poderia saber, que não demoraria até se tornar uma delas.