por Otto Cerqueira

Era hora do rush quando ele adentrou o trem junto com a multidão. Segurava-se numa barra enquanto na outra mão estava sua pasta de executivo. Não há muito espaço para movimento. Ele se preocupa com o horário que chegará ao serviço enquanto amaldiçoa a quantidade de passageiros. Então balança a manga do terno e olha o relógio. 6:59.

Ele assiste a paisagem urbana pela janela.

Passado algum tempo, estranha a demora de chegar à próxima estação. O mostrador eletrônico do trem, que fica acima de cada porta, serve para indicar o local para onde se está indo, e, se ele não estiver enganado, o dispositivo parece ter mudado a localidade. Ele não se recorda de terem parado em momento algum.

Ele olha ao redor e nota que estão todos bastante quietos, então se vira e observa o display mais uma vez. Fora alterado. Logo, isso passa a ocorrer numa frequência crescente. A cada vez que pisca, um novo lugar é exibido na tela, até que endereços variados começam a girar no painel eletrônico.

Incomodado pelo erro, se vira e toca no ombro de um passageiro para falar com ele, mas é totalmente ignorado. Ele mentalmente o xinga e chama a atenção de uma mulher trajada elegantemente. Ela também age com total indiferença. Ele se sente ofendido.

É quando estranha que, de alguma forma, estavam todos de costas para ele, formando um perfeito círculo, como se ele fosse um artista focado por holofotes num palco.

Ele ouve o choro de uma criança e se esgueira por entre a multidão, que passa a apertá-lo mais, e sai à procura dela para ajudá-la. Ele a vê e fica ao seu lado de cócoras. A garota chorava de costas para ele e de frente para a parede do trem. Estava encurvada, abraçando suas pernas e segurava uma boneca com cabelos raspados. Quando ele pergunta se ela está bem, ela se vira. Sua pele estava costurada numa perfeita linha que completava toda a silhueta de seu pequeno corpo. No lugar de seus olhos, havia botões de boneca que ainda não estavam totalmente fixos.

Horrorizado, ele empalidece e cai de costas, tentando se afastar dela e movendo-se para trás. É quando toca um passageiro e olha para cima. Agora era possível ver a frente da bela moça que vira mais cedo. Toda a fronte de seu corpo estava esmagada por trilhos de trem. O crânio rachado exibia uma parte do interior. Uma espécie de musgo viscoso escorria por sua face até tocar sua boca disforme e gotejar no chão ao seu lado. Seus dedos e caixa torácica estavam quebrados, e ela mantinha-se em pé, mesmo com as pernas esmagadas.

A cena se repetia em todos os demais e em diversas formas diferentes. Era surreal e grotesco demais para ele, que sequer tinha fôlego para gritar. Ainda na mesma posição, pôde ouvir um pequeno ranger de ossos vindos do pescoço da mulher. Ela se esforçou em olhar para baixo, seus lábios formando a sugestão da palavra “Fuja”, mas quando o musgo que escorria por sua boca respingou em seu ombro, fora o suficiente para despertá-lo do seu transe. Levantou-se rápido e desajeitadamente seguindo uma direção aleatória.

Deparou com uma porta que dava acesso à travessia para o outro vagão e abriu-a com pressa. O trem passava por um túnel. Havia um pequeno vão com uma passagem estreita no intervalo de um vagão para outro. Mantendo sua pasta a mão, ia passar para o outro lado quando o trem acelerou de forma descomunal. A velocidade abrupta retirou seu eixo de equilíbrio e ele foi jogado para o lado, no sentido da curva, perdendo apoio com um dos pés e soltando uma mão, que inutilmente caçava apoio. Ele facilmente cairia nos trilhos que corriam velozes abaixo, não fosse por sua pasta, que ficara prendida na porta, mantendo um pequeno vínculo para que ele se sustentasse.

Fazendo esforço contra a pressão que a velocidade exercia, conseguiu tatear a parede de aço inoxidável do trem, seus dedos quase deslizando pelos filetes convexos. Com a outra mão, soltara a pasta, que fora estraçalhada na parede entre túnel e o trem, mas agora estava livre para agarrar seguramente a porta. Com certa dificuldade, voltou com os dois pés à plataforma para só então passar para o outro lado e entrar no vagão. O coração batia descompassado.
Só quando conseguiu fôlego novamente pôde sentir o cheiro pútrido no ar. O vagão estava preenchido por um misto de fedor animal, suor, fezes e carne podre. Era na verdade um antigo trem cargueiro de animais, que estava atualmente superlotado de uma quantidade imensurável de pessoas cadavéricas e esquálidas.

Tinham a mais profunda aparência anêmica e faces depressivas. Alguns choravam, outros grunhiam, mas a maioria não tinha força para falar. Usavam roupas de época, provavelmente anos 50, com tons de marrom e cinza sujos e desbotados. Não usavam sapatos.

Com o que lhe sobrara de sanidade, ele concluiu que deveriam ser judeus do Terceiro Reich. A Solução Final. Se isso era ou não possível já não fazia diferença. Nada mais importava além da sobrevivência. Com nojo, se espremia por entre a multidão para tentar chegar ao outro lado. Olhos o seguiam.

Na verdade, sua mente confusa já não sabia sequer se estava seguindo em direção a seu objetivo, o maquinista, mas ele tinha de ir a algum lugar. No entanto, ao chegar ao outro lado percebeu o pior, não havia porta.

Como um comboio cargueiro antigo, era todo feito de madeira e só havia uma entrada lateral, que era trancada do lado de fora. Ele não sabia o que fazer.

Um polonês estava deitado numa rede fixada nos cantos do teto, próximo a uma janela. Havia um pequeno movimento abaixo dele. Tentavam ganhar espaço jogando os falecidos pela minúscula janela retangular.

Ele viu um idoso inerte sendo levantado por alguns poloneses e endireitado pelo homem na rede, até ele passar lentamente pela janela. A cabeça, o tronco, as pernas, e finalmente ele sumira.

Se ele não quisesse ter o mesmo fim, aquela teria de ser sua fuga.

Abrindo passagem, seguiu até o lugar e deu um pequeno salto em direção à janela. Forçou-se para cima e foi passando o corpo pelo pequeno buraco. Do lado de fora, o trem fazia um loop em direção ao topo de uma íngreme montanha. O cenário impossível remontava a algum momento da era feudal europeia, com campos de plantação, uma vila remota, e, um pouco mais distante, um imenso lago nebuloso.

O único apoio para suas mãos eram pequenos vãos entre as tábuas de madeira do teto. Mas ele não teria conseguido subir, não fosse pelo auxílio dos judeus que do lado de dentro davam base para seus pés.

Cautelosamente escalou para a superfície côncava. Seu cabelo esvoaçando uniforme, o vento tentando o derrubar. Semicerrou os olhos e rastejou para frente, procurando manter o corpo rente à madeira. Quase chegou a um desgaste físico. Seus dedos doíam tanto que dava vontade de simplesmente soltá-los, e a ligeira curva que o trem fazia, unido ao desconfortável balançar, o obrigaram a fazer uma pequena pausa para prosseguir. 

Foi nesse momento que olhou para trás e notou uma haste de madeira, com um suporte para uma garra no topo, alinhada com o centro do trem. Era um poste de coleta e iria derrubá-lo colina abaixo caso ele não se apressasse. A adrenalina do momento o fez esquecer toda a fraqueza que sentia. Seus pés deslizaram um pouco para o lado, mas ele se manteve razoavelmente firme e conseguiu descer pela borda momentos antes da garra passar rente a sua cabeça.

Abriu uma porta enferrujada e entrou no vagão. Sem forças, caiu sentado com as costas para a porta. Respirava avidamente, o ar parecia rasgar-lhe o pulmão. Seus músculos flácidos enviavam sinais de fortes dores a seu cérebro. Ele nem tentou mexer os braços e pernas que estavam levemente inchados por culpa do balançar arrítmico do trem. Algumas dobras de seus dedos sangravam e estavam cheios de fiapos.

Ele estava sujo, com vestes rasgadas, e bastante tonto graças a falta de oxigênio. Mas estava vivo. Riu-se, e a falta de ar o fez tossir duas vezes.

Enquanto se acalmava, olhou ao redor. Dessa vez era um vagão Maria Fumaça de ferro, bastante envelhecido, com fileiras de cadeiras em formato de U de estofas rasgadas e porosas. As janelas eram largas, imundas e com algumas trincas.

Ele já tinha forças para levantar. Apoiou-se numa haste de ferro e levantou-se devagar. Agora que seus ouvidos estavam parando de zunir, conseguiu ouvir o ranger de um abrir de portas. Um homem velho, com rosto sujo de carvão e barbas cinzentas entrou no recinto. Sua vestimenta o denunciava como o maquinista. Segurava uma pá firmemente com as duas mãos e estava a poucos metros dele.

Por um momento, ele pensou em pedir ajuda, mas olhou melhor para o rosto inexpressivo do maquinista e estava evidente que se encontrava em perigo. O maquinista abriu a boca e expeliu um silvo estridente como um apito. Então veio em sua direção lentamente, fazendo questão de quebrar um a um os vidros da janela pelo caminho.

Contrariando a situação, não foi medo o que ele sentiu, mas sim o mais puro e profundo ódio. Já não era uma questão de sobrevivência, ele simplesmente não poderia perder depois de tudo o que passara.

Ele terminou de se levantar e foi em direção ao maquinista. Quando estava próximo, o maquinista desceu a pá num movimento curvilíneo, mirando suas pernas. Mas ele era mais jovem e fervoroso e rapidamente aproveitou o espaço livre da pá para agarrá-la e jogar a força do maquinista contra ele mesmo, que caiu sentado numa cadeira.

Enquanto isso, ele soltou as amarras de um antigo extintor de incêndio de uma das paredes. No entanto não fora rápido suficiente para escapar de um ataque na coluna, que o fez bater na parede, mas se virou a tempo de se proteger de um ataque frontal, utilizando o extintor como escudo.

Então ergueu o extintor no ar e completou um eficiente golpe direto no crânio do maquinista, que se rachou. O maquinista cambaleou para trás, bateu o pé numa quina e escorregou para fora da janela que ele mesmo havia quebrado.

Finalmente a salvo. Andou cambaleante e zonzo para a sala de controle. Puxou o freio de emergência e se segurou. Mesmo assim, a parada brusca e a pouca resistência o fez tombar para frente e ele bateu a cabeça numa quina.

Desfaleceu.

Pareciam ter passado várias horas até que ele conseguisse distinguir os zumbidos que ecoavam em sua mente. Suas pálpebras abriam lentamente. Sombras de pessoas desconhecidas o circulavam. Ele se esforçava em raciocinar, mas não conseguia. Uma bela mulher apareceu foscamente frente a seus olhos. Ele reconheceu como a mulher trajada lindamente de antes, mas estava sem qualquer vestígio de ossos quebrados e fraturas expostas.

Pôde sentir as mãos dos paramédicos o levantando e colocando-o numa maca. Tentavam lhe dizer que ele havia batido a cabeça e desmaiado, mas ele sabia que isso não era verdade.
Antes de atarem seus braços e pernas, fez esforço para visualizar o relógio de pulso. Ele sorriu.

Eram sete e trinta.