por Otto Cerqueira



Com o advento da minha faculdade e o trabalho, meu tempo vai ficar bem curto para postagens. Por isso é provável que farei somente um post por semana, talvez dois.

Recentemente assisti o anime Eve no Jikan e então decidi divagar sobre esse enigma que é a relação homem-máquina, uma preocupação comum do homem com seu futuro. E por se tratar de futuro, terei de fantasiar em algumas partes para poder prosseguir, e à medida que o farei trarei assuntos relacionados para melhor compreensão.

O que me fascina sobre o tema é que se uma máquina tiver independência fisiológica e capacidade de assimilação de dados, ou melhor, raciocínio próprio, o que de fato o separaria do homem? Tais questões teriam deixado o "Cogito, Ergo Sum" de Descartes uma confusão.

Em minha opinião nosso corpo é "só" uma carcaça. O que somos de verdade está no cérebro; motivo pelo qual não há necessidade de espírito, essa é uma visão de faz de contas a qual tantos se apegam para não perderem seu sentido da vida. Contanto que essa imagem de espíritos dê forças para a pessoa, não há problema, no entanto é muito frequente casos em que isso os impede de se aproximarem da verdade. Aliás, a noção de espírito está intrinsecamente relacionada com o pudor sobre o assunto homem-máquina, como direi mais a frente.

Numa pequena história, alguém se apaixona por outro alguém que é deficiente e por isso usa uma prótese na perna. Essa paixão é errada? De forma alguma. E se levarmos mais afundo e, num acidente fatal, nosso corpo pudesse ser literalmente substituído - mantendo apenas o cérebro e a coluna vertebral – dessa vez seria errado se apaixonar por essa pessoa? Eu não vejo deste modo. Em sua essência, ela é tão humana quanto nós.

Se o motivo for o "calor" do corpo, vamos viajar para uma época em que a pele foi perfeitamente reproduzida. A relação seria errada simplesmente porque seu interior é feito de hardware e não de organismos? Mas, sendo o hardware uma criação nossa - como os ‘semideuses’ que somos - ela não se torna algo natural?

Vamos esclarecer o seguinte: uma flor de plástico não é uma flor de verdade, tampouco o suco em pó é como o natural (já que depende da essência do natural para existir). Falo de um caso em que um ciborgue é completamente independente. Afinal, cuidar de um corpo cibernético que pode perfeitamente raciocinar por conta própria e viver como um de nós, não é tão normal como criar um filho? Ou seria a copulação o único meio racional (fora adoção) de se ter filhos?

Provavelmente tudo isso é apenas o início da verdadeira questão, que não é o corpo (ou hardware) e sim a mente (software). Até agora cogitei sobre uma troca de corpo mantendo aquilo que muito dificilmente terá substituto, o cérebro, mas se por ventura essa máquina humana - que é mais incompreensível que o próprio universo – venha a ser recriado, o que seríamos nós então? Qual seria o nosso diferencial?

Essa visão de que alguém possa ser igual a nós é o cerne do medo e do preconceito. Ninguém pode tomar nosso lugar. A questão do "artificial" vem em segundo plano, ofuscando o primeiro. Mas por que esse "artificial" é algo tão horrível? Isso lembra o debate sobre clones, que foi fortemente combatido pela Igreja, sendo esta, leiga, incapaz de perceber que é impossível clones serem exatamente iguais a suas origens. Você já viu um irmão gêmeo idêntico matar o outro só por serem iguais em aparência? Eu, por exemplo, tenho um amigo que em comportamento é muito parecido comigo, e mesmo assim não tenho qualquer vontade de subjugá-lo para ser o único.

Então, temos um medo de sermos substituídos e “não mais amados”. Mas qual seria a origem desse temor? Vamos ter que dar uma pausa em relação ao homem-máquina e voltar ao que eu disse anteriormente sobre o espírito para isso.

O homem desde sua origem imagina o que há além do que se pode ser visto, ou seja, de onde veio e para onde iria após a morte. Mas éramos ainda muito novos, não podíamos compreender, então criávamos histórias para tentar eliminar nossas dúvidas.

Há muito tempo, cansados depois de uma longa caçada, deitávamos sobre o campo e olhávamos para o céu. Naquela época simplesmente não tínhamos noção do que era o céu. Nós dormíamos sobre uma magnífica lua... Enquanto dormíamos, sonhávamos, e estas imagens oníricas eram tão estranhas para nós que em muitas crenças imaginavam que durante o sono nos transportávamos para fora do nosso corpo.

De fato às vezes temos sonhos tão estranhos que não parecem terem sido nossos. Da mesma forma é difícil vermos nosso cérebro como o que nós somos, nos parece algo a parte de nós. Ora, essa sensação de algo “a parte” não é justamente o que entendemos por nosso “espírito”? Veja, na fantasia temos o espírito (algo puramente hipotético sem qualquer base) e no outro temos o cérebro (um fato). Associando o primeiro a religião e o segundo a ciência notamos que ambos são na verdade, duas faces da mesma moeda.

O mito é o início da ciência. Mas sozinho o mito será sempre uma mentira, enquanto a ciência é sempre um caminho para a verdade. Acontece que as pessoas acreditam que se somos “só” cérebro, sem um toque de magia, somos menos especiais do que deveríamos ser, e isso entra em conflito direto com a razão pela qual vivemos. Mas uma tênue linha de engano leva a outra muito maior: saber como algo funciona não o torna menos especial. O que há de errado em sermos “só” cérebro? Seremos ainda os mesmos. Não importa a vida após a morte, mas o que se faz durante ela. Enquanto ao menos um trecho disso não for desmistificado, continuarão a temer a tecnologia.

“Tecnologia é algo ruim. Vai contra Deus e sua criação, que é algo natural. Querem fazer clones! Querem que robôs sejam como nós! Não somos Deus e não devemos tentar imitá-lo!”. Olha, criar uma máquina de forma alguma vai contra qualquer lei de Deus. De acordo com a bíblia ele nos deu o livre arbítrio desde que sigamos seus mandamentos. Eu vejo os mandamentos de uma forma que acredito ser muito mais prática: não prejudique ao próximo e nem a si mesmo.

Se criássemos um clone ou um ciborgue, ele iria nos prejudicar? Não. Para que matá-lo antes mesmo que ele tenha uma chance de viver? Se ‘imitar’ Deus fizesse com que ele deixasse de ser Deus, ele seria só um carinha muito medíocre.

Demócrito, por exemplo, desenvolveu a teoria do átomo. No entanto o átomo - que significa indivisível - se partilhava ainda entre prótons, nêutrons e elétrons; e quem sabe quanto ao futuro... O ponto é: continuamos dando a ele o crédito da idéia original, mesmo ela não estando totalmente certa, e a evoluímos. Por que então os crentes acreditam que desmereceríamos a Deus continuando o que ele começou?

Criar só consiste um problema quando interfere no “meu mandamento” de que algo não deve ferir a outro. Por exemplo, não é errado desmatar, mas desmatamos muito além do que poderia ser reposto e mal tentamos reconstruir o que fizemos.

Em suma, devo dizer que o transhumanismo é um benefício para o homem. Ampliaremos nossas capacidades e daremos felicidade aos deficientes que precisam de membros cada vez mais parecidos com os “normais”. Milhões de vidas beneficiadas... Quanto à substituição total de membros ou mesmo o surgimento de uma vida totalmente robótica, ainda é muito cedo para conclusões, mas mesmo assim arrisco que não haveria qualquer problema desde que seja feito na medida do possível.

Nos veículos midiáticos o tema aqui tratado é explorado por um nicho de pessoas que - como eu - gostam de assuntos cyberpunk. Tudo "começou" com Isaac Asimov e suas leis da robótica no livro Eu, robô e desde então conta com inúmeros sucessos. Nos livros temos a 'saga' Neuromancer; no cinema Blade Runner e Matrix, e nos animes e mangás Ghost in the Shell é o principal representante. Aliás, devo falar que Matrix é fortemente influenciado por GitS, tal como pode conferir aqui mesmo, mas já esclarecendo de antemão que não é um plágio. Os próprios irmãos Wachowski admitiram a inspiração.

Para não estender mais, devo recomendá-lo também Akira (a principal animação cyberpunk que existe), Cowboy Bebop, e Ergo Proxy que também trabalha com algumas filosofias, no entanto é mais para dar consistência a trama do que ser uma reflexão propriamente dita.




Curiosidade: Com o avanço da astrologia, descobrimos que a lua era responsável pelas marés e por moldar o calendário; sendo ela tão poderosa, não poderia controlar também o destino do homem? Acreditavam que sim. Por isso que até o século XX as pessoas que sofriam de doenças mentais eram chamadas “lunáticas”, já que sua doença era influenciada pela lua.