por Otto Cerqueira Comentários



Parte 1 aqui


Capítulo 3: A Feiticeira e Seu Fantoche


Sonata possui diversos bairros. Em cada bairro do reino, para preservar a ordem local, há uma construção de vigília onde diversos guardas reais resolviam os problemas que apareciam. Esses locais eram denominados Sede da Ordem, onde trabalhavam os Vigias da Ordem. As Sedes da Ordem estavam abaixo das outras diversas organizações militares. Cada sede tinha um comandante, que respondiam as ordens do General Kriegmann. Geralmente, seus trabalhos eram monótonos. Os meios de punição radicais de Sonata provocavam medo naqueles que pensassem em algum momento a cometer alguma infração. Os maiores casos registrados eram de pequenos roubos. Como foi o caso na manhã anterior ao concerto.

Era um bairro pobre de Sonata, Alexandria. O mesmo bairro onde havia acontecido o assassinato de Anselme III. Um guarda trazia pela mão um garoto de treze anos que havia sido pego roubando frutas em um mercado. Ele arrastava o menino de cabelos pretos que tentava a todo custo se desvencilhar das mãos pesadas do homem. Era inútil. Nem se fosse mais velho ele conseguiria se soltar do pesado Vigia da Ordem que havia sido treinado para prender um homem adulto forte se necessário.

Eles andavam na manhã fria em direção à Sede da Ordem que ficava algumas quadras longe do mercado onde o furto havia ocorrido. O vigia ofegava, pois se o menino era fraco, era do mesmo modo veloz. E só após alguns minutos um tropeção fez com que fosse pego.

Chegaram até a Sede rápido. As ruas de Alexandria estavam desertas. E quietas. A música havia sido oficialmente proibida após o concerto pelo Primeiro Ministro. E era verdade quando diziam que o povo de Sonata tinha música no sangue. No silêncio total, não se animavam nem para sair de casa.

Havia uma pessoa em frente à Sede. Estava vestida com um manto preto, sentada em um caixote em frente ao prédio, com a cabeça abaixada e o capuz do manto sobre ela. O vigia olhou curioso para a figura ao se aproximar.
- Quem é você? O que está fazendo aqui? - ele perguntou, desconfiado.

Uma voz feminina de uma jovem mulher saiu de dentro do capuz que cobria sua cabeça:

- Estou esperando alguém...

- Pois vá esperar em outro lugar. Você não tem permissão para ficar aqui.

- A pessoa que estou esperando, já está saindo - falando isso, a mulher com o capuz apontou para a porta da Sede.

A porta abriu-se e nela apareceu uma garota, de por volta de quinze anos de idade, os cabelos loiros ondulados. Tinha uma venda preta nos olhos, feita de pano e carregava uma espada ensangüentada na mão direita.

A reação do vigia foi automática. Atirou o menino que havia prendido no chão e tentou alcançar sua arma que estava na cintura. Mas não houve tempo. A espada atravessou seu peito furando instantaneamente seu coração. A menina retirou a espada do cadáver, que despencou sem vida na calçada.

A mulher com o manto preto levantou-se e tocou o ombro da jovem com a venda nos olhos. Como se a tivesse dirigindo, levou-a para o lado e começou a andar. Parou ao ver o menino no chão, e a marca em sua mão. Um trevo de quatro folhas azul.

- Você - ela falou. - Você é de Clover também?

O garoto levantou a cabeça e olhou para a mulher. Acenou positivamente. A mulher com o manto negro abaixou-se e ofereceu a mão ao garoto. Ele segurou e ela o ajudou a levantar.

- Também vivia em Clover. Morei lá até... - ela baixou o rosto.

- Quem é você? - perguntou o menino, desconfiado.

- Eu? Meu nome é Morgana.

Ela então atirou o capuz para trás e longos e lisos cabelos pretos, brilhantes, caíram pelas costas do manto. Tinha um rosto bonito, embora uma cicatriz o percorresse do lado direito. Ela sorriu.

- Sou Nick - falou o menino, agora intimidado. - Meus pais estão mortos. Eu tinha que roubar para... - ele olhou para o corpo no chão. E então para a menina de cabelos loiros. - Você o matou. Por quê?
- Porque precisávamos - respondeu Morgana. - Não adianta perguntar nada a Sara. Ela não vai responder. Ela só fará aquilo que eu ache que ela deva fazer.

Nick baixou o rosto, encarando os pés no chão. Morgana era muito bonita, mas também o assustava de algum modo. Ele queria sair correndo dali, mas também não havia para onde ir. Ah não ser roubar de novo.

- Quer trabalhar para mim? - perguntou então Morgana.

O menino olhou para Sara pensativo. A menina que não se movia e tinha uma venda nos olhos de alguma forma o assustava também. Mas a voz de Morgana era bastante gentil. De modo que ele não resistiu e concordou com a cabeça.

Morgana sorriu gentilmente e começou a seguir em frente. Nick foi atrás.

* * *

Morgana estava em uma peça escura. Estava ajoelhada e com a cabeça baixa. Alguém a encarava por detrás de uma mesa cheia de folhas na frente dela.

- Como foi? - uma voz masculina perguntou.

- Estão todos mortos, meu senhor. A Sede da Ordem do bairro Alexandria não existe mais.

- Ótimo.

O homem então se inclinou para frente na mesa, e o rosto do general Kriegmann foi iluminado pela luz. Ele pegou um caderno a seu lado e começou a fazer anotações. Quando parou, levantou-se da mesa e encaminhou-se até onde Morgana estava ajoelhada e Sara estava em pé, imóvel.

- A morte do rei foi um presente dos céus. Gostaria realmente de saber quem foi o culpado, para agradecê-lo. Agora o sonho pelo qual meu pai morreu finalmente será possível.

Morgana ficou calada.

- Anselme III era amado pelo povo - continuou o general. - Até aqueles que não têm sangue puro de Sonata que ele desprezava o amavam. Com ele vivo nada poderia ser feito. Mas agora... - Kriegmann chegou perto de Sara e começou a alisar o cabelo da menina. - Agora, enquanto o Primeiro Ministro está no comando será mais fácil. O povo nem mesmo o conhece, é um estranho total. Quando um número considerável das Sedes da Ordem cair, o caos se instalará no reino. Será o momento de o Primeiro Ministro usar toda a força militar, aumentando ainda mais o caos. E é dentro do caos que nascem as revoluções.

- Então o senhor tomará o poder - murmurou Morgana.

- Exato. - o general a olhou, indiferente. - Diga, sua bruxa, quem é aquele garoto parado em frente à porta?

- Ele havia sido preso por um dos vigias que matamos, meu senhor.

- E por que o trouxe e não o matou? Ele é um cidadão puro de Sonata?

- Não senhor. Ele é... de Clover.

O rosto do general assumiu uma expressão de nojo.

- Mais um maldito parasita - falou. E então para Morgana. - Não esqueça, bruxa, para quem trabalha. Estou trabalhando muito para isso. É o melhor para Sonata. O sonho de meu pai. E sacrifiquei muita coisa por isso - olhou para Sara com um rosto triste. - Como minha pequena Sara. Minha própria filha.

- Entendo, meu senhor.

- Agora tenho que cuidar de outras coisas. Não se esqueça do que deve fazer. - ele começou a andar de volta para a mesa, e dirigiu-se para a porte além dela. - Apenas se o Primeiro Ministro tivesse morrido ontem.

- Meu senhor - falou Morgana, levantando a cabeça um pouco. - Tem certeza que não sabe quem foi o assassino de sua majestade?

- O que disse, bruxa? - perguntou o general sem se virar.

- Nada não senhor - Morgana sorriu.

Após o general sair, Morgana rapidamente foi até a mesa, pegou uma folha em branco e começou a escrever algo. Depois de terminar, virou-se para Sara. A menina estava parada como sempre. E com um gesto da feiticeira, ela se moveu.

* * *

Nick estava agachado, esperando na frente da porta no fim do beco exatamente como Morgana havia mandado. Brincava com insetos que passavam no chão tentando se distrair. Assustou-se quando a porta abriu repentinamente e dela saiu Morgana.

Antes que ele pudesse falar qualquer coisa, a mulher jogou um envelope na sua mão. Ele olhou para o papel branco confuso quando ela colocou uma mão encima da outra. Quando separou as mãos, havia uma velha fada encima de uma delas.

- Você corre bastante, não? - perguntou Morgana.

Nick assentiu.

- Então siga essa fada. Ela vai encontrar uma garota. Quando ver essa garota, entregue este envelope a ela. Se bem a conheço, ela está procurando pelo culpado pela morte do rei. A encontrei uma vez, mas sei que ela é bem capaz.

Nick tentou falar, mas Morgana continuou:

- Há um palpite que tenho sobre esse caso. Acho que pode ajudá-la. E com isso, ela pode me ajudar. Só, você não deve falar que fui eu quem mandou a carta. Ela provavelmente quer me matar e rasgaria a carta na mesma hora. Diga que a carta foi mandada por um homem chamado Kelvin. E não importa para você quem é ele. Agora vá! Rápido!

Nick viu a fada começar a se mover na rua. Mas antes de segui-la, perguntou.

- E qual o nome dessa garota?

Morgana olhou para ele e falou, com um sorriso:

- Celine Rosso.