por Otto Cerqueira Comentários



Sonata! é um projeto feito por mim em união com Gerson, Matheus e Omaruk, meus colegas virtuais (também aspirantes a escritores). Infelizmente, como o Matheus e o Omaruk tem tido pouco tempo para internet, apenas eu e o Gerson continuamos, mas não há chances de desistência. Estamos muito empenhados nisso.

Essa brincadeira funcionará da seguinte maneira: contaremos uma história para vocês sem que nós mesmos saibamos como cada um vai continuá-la. Dessa forma teremos uma história bem mais inovadora, pois haverá sempre novas ideias. Seguiremos como "escritores fantasmas", não vamos dizer quando houve uma mudança de escritor. Direi apenas que eu comecei e que seguimos na ordem que escrevi nossos nomes acima (até a parte onde o Matheus e o Omaruk escreveram pelo menos).

Como sou péssimo em sinopses, prefiro que vocês leiam ao menos o prólogo e o primeiro capítulo e avaliem se vão ou não acompanhar. Semanalmente postarei dois capítulos. Espero que gostem.


Sonata!


Prólogo


Ele andava de um lado para outro ansioso pelo que estava por vir. Ora, após tanto tempo aguardando e preparando seu meticuloso plano essa era uma reação normal. Afinal, finalmente Ele mostraria a todos o quão ridículo é terem esquecido a beleza da harmonia, da liberdade e da sabedoria que apenas a música pode prover.

Ah, mas Ele iria orquestrar um espetáculo para que todos apreciassem do fundo de suas almas.

E que espetáculo memorável esse viria a ser...


Capítulo 1: O Desfile

Toda a avenida estava apinhada de pessoas e outros seres que se espremiam e empurravam para ver um dos nomes mais importantes do planeta, Anselme III, o rei de Sonata. Seu nome era de tão grande importância que quando se locomovia para outro lugar havia sempre um desfile para venerá-lo. Havia uma restrição para mestiços e híbridos. Somente puros-sangues de Sonata poderiam vê-lo nos breves cinco minutos em que sairia de seu luxuoso carro preto para acenar para a população.

Aquele também não era um evento comum, era a primeira vez que alguém de tamanho prestígio passaria por um lugar tão pobre em toda a história de Sonata. A rua só foi recentemente pavimentada e apenas onde Anselme III passaria, de resto, o que havia de rua foi graças ao esforço de alguns que se uniram para colocar pedras no chão e fixá-las com um barro especial. Os donos das lojas e casas que havia ao redor do curso do desfile tiveram que reformar suas propriedades via decreto, e como eram pobres demais para isso, metade da rua foi presa e tiveram seus bens tomados para ‘melhoria em prol de uma cidade mais bela’, como anunciava o Governo.

O momento que todos esperavam estava próximo de chegar. Já passaram por aquela rua o Primeiro Exército Imperial, os melhores do Grande Circo, a Banda de Noitra, e três carros de segurança atrás, estava Anselme III. Os guardas que vigiavam na rua e os atiradores que cercavam a área estavam em seus devidos postos, prontos para qualquer adversidade que pudesse ocorrer. Mesmo o carro de Sua majestade era envolto de espessas camadas de vidro especial capazes de deter quase toda magia ou forma bélica que existisse.

O sino badalou o meio-dia. Uma música surgia de algum lugar longínquo e foi preenchendo o ar. Era bela e suave. E todos passaram a gostar dela e se sentirem emocionados e energizados pela magistral sinfonia...

O teto solar do carro de Sua majestade abriu para que ele pudesse se exibir. Sorrindo, o velho e rico rei apareceu de cima seu carro enquanto esperava pela explosão dos fogos de artifício, mas nada apareceu. Ao passo que o rei acenava, a bela música foi aumentando e se tornando cada vez mais aguda. E logo ficou alto e estridente o suficiente ao ponto de obrigar todos que estavam ali – incluindo o rei - a taparem os ouvidos. O som foi se expandindo. As pessoas já estavam ajoelhadas ao chão, abafando o som, agonizadas e torcendo para que ele cessasse logo, mas ele parecia não ter fim. E logo alcançou uma nota tão alta que todas as vidraças das casas e lojas ao redor foram sendo estilhaçadas na mais perfeita ordem.

E quando finalmente alcançou o carro de Anselme III, o vidro de seu carro estourou. Agora desprotegido, o rei pôde visualizar por um momento uma janela não muito longe de um pequeno e pobre prédio. Nele, um de seus supostos atiradores, mirava a arma para sua cabeça, e disparava. No mesmo momento em que o rei desvanecia, a música cessou e os fogos finalmente explodiram em alegria no ar. E assim o rei caiu por cima dos estilhaços de seu carro, morto.

As pessoas choravam, os secretários e ministros se desesperavam, mas a realidade era uma só, e ali estava, na forma de uma tragédia recaída sobre aquele que um dia foi o símbolo máximo de poder e nobreza. O sangue de Anselme III significava mais do que a sua vida, era o pilar principal de todo um reino, e com as bases fragilizadas, bastaria um simples descuido para que toda a estrutura ruísse. Exatamente como planejado...


Capítulo 2: Silêncio!

- Isso não pode ser tolerado!

O primeiro-ministro Thomas Vancoor estava com o rosto rubro, num misto de desespero e raiva que lhe dava um aspecto de quem estava prestes a ter um enfarte. Apontou com o dedo trêmulo para o General Kriegmann.

- Exijo explicações! Como pode deixar que um assassino se infiltrasse entre a tropa de elite da segurança real, cometesse um ato de tamanha ousadia e escapasse sem deixar vestígios? Ou o sujeito tem super poderes ou você é ainda mais incompetente do que eu pensava! E não me faça dizer em qual das duas opções eu aposto!

Kriegmann mantinha-se irredutível, com a postura de um verdadeiro militar. Estava acostumado com os insultos por parte de Vancoor, com quem não tinha um histórico muito invejável.

- Estou tão confuso quanto o senhor. Tinha certeza de que a segurança estava impecável.

- Por que não foram imediatamente atrás do atirador?

- Fizemos isso, senhor... Porém não encontramos sequer rastro dele. Além disso, revisando os planos de segurança percebi que não havia nenhum de nossos homens posicionado naquele local.

- E aquela melodia? De onde veio?

- Também não sabemos.

Vancoor sentou em sua cadeira e colocou as mãos no rosto. Ergueu o olhar e disse ao general:

- Devo entender que esse sujeito surgiu do nada, assassinou o nosso rei e desapareceu no ar?

- Infelizmente é algo muito próximo disso, senhor.

Vancoor levantou-se e olhou pela janela. A cidade inteira estava de luto pela morte de Anselme III. Tudo havia acontecido muito depressa. O som estridente, o tiro, a ruína. Todos se sentiam impotentes diante do criminoso.

- O mínimo que podemos fazer é prestar as devidas homenagens ao rei. - Disse, com a sombra do fracasso cobrindo o rosto. - Amanhã realizaremos um concerto no Grande Teatro de Sonata, e, a partir daquele momento, todo tipo de música será proibido até que encontremos o culpado.

O general concordou e retirou-se. Vancoor estava tão preocupado que nem sequer notou a pequena figura alada que saiu de seu esconderijo atrás da cortina e precipitou-se para fora da janela.

***

A pequena fada seguiu sobrevoando os telhados do reino. As ruas ainda estavam movimentadas, apesar de já passar da meia-noite, mas todos os que passavam tinham um ar de tristeza em seus rostos. Seguiu em direção a um edifício onde alguém a esperava. Uma garota ruiva, de cabelo não muito longo e de olhos cor de esmeralda. A fada pousou sobre seu ombro e lhe transmitiu aquilo que havia presenciado:

- Vancoor deve estar ficando louco! Vai realizar um concerto amanhã e depois proibir qualquer tipo de música, a menos que encontrem o culpado.

- Ora, Pó-de-Estrela, você sabe que Tommy nunca bateu muito bem. Aquele velho já é caduco de nascença.

- O que vai fazer?

- Bom, se há um criminoso, há recompensa pra quem o encontrar. Acho que essa é a grande chance de fazer o nome Celine Rosso ser conhecido pelos quatro cantos de Sonata. Fama e fortuna, minha amiguinha, nada menos do que eu mereço.

- Mas se nem mesmo o governo conseguiu encontrar esse cara, como você pretende fazer isso sozinha?

- Ah, Pó-de-Estrela, o seu problema é ser pessimista demais. É tudo uma questão de vontade.
- Se você diz...

- Bom, a noite é uma criança. Vamos encantar um pouco essas ruas antes que essas pessoas morram de tristeza.

Celine pegou seu violino, desceu até a rua e começou a tocar, ao mesmo tempo em que caminhava pelas ruas menos movimentadas. Uma alma vermelha com sua melodia encantadora.

***

Chegou enfim a noite do concerto. As pessoas se agitavam em frente ao Grande Teatro, algumas fadas voavam agitadas, com seus risinhos característicos. Celine entrou no auditório e sentou-se na fileira mais perto da porta, onde tinha uma visão maior do auditório em si. A parte do espetáculo que a interessava não estava no palco.

Aos poucos a orquestra foi entrando, e assim que todos estavam calados em seus lugares, o maestro deu o sinal para o início de um réquiem em homenagem ao falecido rei. A música era incrivelmente bela e incrivelmente triste. Logo quase todos os presentes estavam com lágrimas escorrendo dos olhos.

Porém, algo inesperado aconteceu.

O maestro percebeu que havia um violinista a mais do que o esperado. Isso seria preocupante, mas o mais assustador é que o violinista em questão estava sentado num canto mal-iluminado do palco, e usava uma máscara branca e uma cartola. O maestro fazia o possível para não esboçar nenhuma reação, mas o suor frio lhe escorria nas têmporas e na testa. Como se não bastasse o assombro, o violinista começou a sair de sincronia com o restante da orquestra. Tocava uma melodia completamente diferente, que ia ficando mais aguda a cada compasso. A platéia percebeu a presença da figura misteriosa e ficou paralisada. Todo o Grande Teatro parou para contemplar a melodia macabra. Logo o som se tornou tão agudo que todos cobriram seus ouvidos e esboçaram expressões de dor. Celine estava de joelhos no chão, se esforçando para não gritar.

De repente ouviu-se o som abafado de um tiro. Todos se assustaram, e ninguém sabia de onde havia se originado o disparo. Tudo o que se sabia é que havia atingido alguém da primeira fila. Celine correu para tentar encontrar algo que a ajudasse a encontrar o criminoso, mas não havia sinal de quem havia disparado a arma, e o violinista misterioso havia desaparecido. Celine correu para ver quem havia sido atingido pelo disparo.

Um corpo jazia imóvel encima do banco. Do peito o sangue escorria para fora da camisa pelo buraco aberto pelo tiro. Havia acertado no coração. O rosto contorcido, provavelmente pela perturbação que estava sentindo por causa da música aguda tocada pelo misterioso homem da máscara branca.

Em pouco tempo, várias pessoas chegaram próximas ao corpo. Os guardas presentes no Grande Teatro tentavam, inutilmente, remover a multidão. Quando Celine chegou, já não mais conseguia espaço para vê-lo. Espremeu-se entre todas as pessoas que murmuravam palavras incompreensíveis. Todos cochichavam ao mesmo tempo. Alguns exclamavam. A maioria parecia apavorado.

"De novo..."

"Mais um morto..."

"Uma música novamente..."

"Como com sua majestade..."

Os trechos de palavras chegavam aos poucos aos ouvidos de Celine, que as ignorava. Quando finalmente conseguiu enxergar o rosto da vítima, parou perplexa. O rosto do homem era totalmente ignorado por ela. Não era ninguém que conhecia, e tinha certeza que não se tratava de ninguém importante para o reino. Mas o lugar em que ele estava sentado, Celine sabia, era o lugar reservado para o Primeiro Ministro.

* * *

O concerto terminou prematuramente. Todos foram convidados a sair do Grande Teatro, não sem antes serem meticulosamente revistados. Mas todos sabiam que era inútil. O assassino provavelmente já tinha saído muito antes. Quando o Primeiro Ministro chegou minutos depois, surpreso, disse que tinha saído para resolver alguns problemas que haviam surgido. E que não fazia idéia de quem era o morto ou de como ele havia parado ali.